Estava aqui prestes a iniciar este texto sobre algo que venho refletindo há algum tempo, quando olhei pela janela do meu ateliê com a vista do céu e das árvores da casa do meu vizinho e me senti grata por estar aonde estou, mesmo quando os dias difíceis aparecem com mais frequência que outrora.
Vou te contar! Em outubro e novembro de 2023, a morte se apresentou a mim e levou duas pessoas importantes em minha vida, fazendo com que a tristeza persistisse em meu coração na maioria dos momentos em que tenho vivido até agora.
Em meio a um turbilhão de sentimentos e tentativas de ressignificar emoções e atitudes perante ao acontecido, o caos se instalou, mas eu sigo porque é isso o que quem fica faz: segue! Ajustes deverão ser realizados e estão em processo, mas te trago algumas provocações. rsrs
Em meio ao meu silêncio repleto, lembranças e sensações fazem revoada em minhas entranhas. Os espaços vazios de agora, que se juntaram às outras lacunas que ficaram graças à visita da morte, me fazem sentir o quanto a vida é breve para tantos sonhos e para a oportunidade de viver que recebemos quando fomos convidados a estar novamente neste mundo.
Quantos aprendizados alcançamos e quantos mais que ficarão pra próxima? Atitudes infinitas que existiram e outras que ficaram no imaginário do ser sonhador que não conseguiu realizar? E aqueles sentimentos que ficaram pra trás e aqueles que sequer foram experimentados?
A vida é agora. A vida é breve. E diante da loucura da vida, eis me aqui sedenta por realizar, mas paralizada em meio ao caos furtivo que habita em mim e arranca possibilidades infinitas que venho cultivando em meu mais profundo ser.
Ah Angelina, mas é só agir! Falar isso para alguém cujo pensamentos voam a milhão como eu é como me ofertar um sorriso banhado em sarcasmo. É claro que eu sigo realizando, mas não, ainda, da maneira como eu gostaria!
Então, em meio a estas reflexões embebidas na anarquia emocional momentânea, trago dois K-dramas recentes: My Demon (Disponível na Netflix/2023) e Marry my husband (Prime Vídeo/2024).
Em My Demon, o ator Song Kang interpreta um demônio imortal, capaz de amar e claro, quer aproveitar cada segundo com a esposa humana, interpretada por Kim Yoo-jung, justamente porque a vida dela é relativamente curta, se comparada à imortalidade dele.
Já em Marry my husband, um novo casal, interpretados por Park Min-Young e Na In-woo, surge a partir do momento em que os dois, após morrerem, tem a chance de voltar, mudar o futuro e se apaixonarem, tendo uma segunda chance de serem felizes.
E assim, sabendo da brevidade da vida, o que estamos fazendo para aproveitar os momentos que temos, sejam eles bons ou ruins? De que forma estamos vivendo pra valer à pena no final?
Como você consegue assistir dorama e fazer as coisas? Você não cansa de assistir isso? Não olha mais o whatsapp, te mandei mensagem e você não viu, só assiste dorama… Estas são algumas das coisas que ouço no meu dia a dia de abril de 2023 pra cá. Sim… eu amo dramas asiáticos.
Ao pesquisar, vamos ver que tem drama japonês (doramas), chinês (Cdrama), sul coreano (kdrama) e por aí vai. Eu prefiro as produções chinesas e sul coreanas, pois as histórias me prendem mais com seus enredos românticos, mas é possível encontrar outros estilos como comédia romântica, fantasia, de época, terror, suspense, entre outros.
Agora, se esperas cenas quentes, beijos calorosos e pegação neste tipo de conteúdo, esqueça! A maioria dos dramas não segue por este viés, pois tudo fica subentendido e até as cenas de sexo são sutis, com cortes bem na hora do “vamos ver”.
É mo bem, para nós ocidentais, em um primeiro momento causa certa estranheza e frustração, mas precisamos entender que cada país possui sua maneira singular de encarar algumas questões e as novelas asiáticas tendem a considerar o que a audiência quer, justamente para que haja maior engajamento e consequente retorno financeiro, pois algumas passam na televisão local.
Você não pode imaginar o quanto fiquei frustrada quando terminei o primeiro drama da minha vida, o tal “100 dias meu príncipe” (2018), sem qualquer manifestação carnal de carinho. Misericórdia! rsrsrs Imaginem, enquanto aqui no Brasil é bem comum vermos cenas explícitas de afeto e beijo na boca em qualquer lugar, na Coréia, por exemplo, isso é visto como falta de respeito.
Agora, é fato que o conteúdo cultural sul coreano vem conquistando o mundo já há alguns anos, como o k-pop, cujo um dos maiores exemplos é a boy band BTS, que estão em voga há 10 anos. Definitivamente, conteúdos asiáticos não faziam o meu “tipo” até eu cair na armadilha da netflix, que despretensiosamente (ri alto aqui), sugeriu um drama coreano. A partir daqui tudo estaria perdido rsrsrs.
Eu só queria algo leve, bobinho, pra aliviar a minha cabeça hiperativa! Sim, enquanto trabalhava, eu ouvia vídeos sobre arteterapia, cerâmica, como ser mais produtiva, venda na internet, como usar o instagram para vender… foi assim que minha cabeça acabou poluída com informações aleatórias e mais da metade delas não serviriam pra nada.
A questão é que eu não curtia séries porque, do nada, as plataformas de streaming paravam de produzir e eu ficava desapontada com aquilo, sem saber o final da trama, mas quando descobri um tipo de série que tinha início, meio e fim, em 16 episódios (Cdramas podem ter até 30 episódios), resolvi dar uma chance. Ali, foi um caminho sem volta mesmo!
É aquele negócio: vou assistir só mais um episódio e quando vê, são quatro da manhã. Fonte: dorama lovers
Afinal, por qual motivo um bando de gente e eu viciamos em dramas asiáticos?
Após assistir uma penca de séries, filmes e novelas, sendo a minha última uma das mais queridinhas da galera drameira, “O que há de errado com a secretária Kim” de 2018, percebi que, ao menos para mim, é muito simples: enquanto assistimos, temos uma overdose de ilusão e esperança de um dia viver algo daquele tipo.
Penso que, no fundo, queremos nos identificar e sonhar com um possível romance magnífico, perfeito, sem pensar que isso só ocorre na ficção rsrsrs. Haja saúde mental pra separar realidade de ficção e não criar expectativas.
Ainda enfatizo que, raros dramas trazem umfinal triste! Tem uns perrengues ao longo da trama, mas os protas são fofos, como um príncipe encantado das produções da Disney, numa versão moderna e de olhos puxados! Quem não gostaria de um love destes? Todos os personagens principais são praticamente P E R F E I T O S, capazes de fazer qualquer mulher feliz com sua educação, gentileza, romantismo, amor e dinheiro… muito dinheiro, o verdadeiro “felizes para sempre”.
O felizes para sempre em Sorriso Real (2023). Imagem: KoreaIN
Acontece que a realidade é beeeem diferente e claro, precisamos separá-las da ficção como eu disse! Não existe NINGUÉM perfeito nesta existência. Nem o ator que empresta seu corpo para esse tipo de trabalho deve ter comportamento semelhante ao de seu personagem. Estou enfatizando os homens aqui justamente pelo fato de que, na maioria dos dramas, existe um clichê: um homem perfeito que se apaixona por uma mulher simples e frágil que precisa na figura masculina para ampará-la por toda a vida. Aaaaaaahhhh!
A vida real pode ser bem cruel no quesito amor e relacionamento (em comparação aos dramas), altos e baixos permeiam qualquer relação humana e está tudo bem, desde que isto não nos fira e tire a nossa motivação pra viver e sermos felizes.
Inclusive, atualmente, há uma corrida insana de mulheres ocidentais viajando para a Coréia atrás de seu tão sonhado “oppa” e como dizem em Minas Gerais (onde nasci), elas estão “dando com os burros n’água”. Os casos de abuso psicológico, assédio e violência doméstica crescem consideravelmente envolvendo estrangeiras, a ponto de um canal de notícias daquele país realizar um documentário sobre.
Enfim, assistimos dramas asiáticos porque é uma forma de reviver a fantasia das princesas Disney com a maturidade permitida pela adultez. Tem gente que acredita que o oppa virá? Sim, tem, mas não é o meu caso. rsrs
Vou continuar assistindo meus dramas? Claro! Mas com a minha dose de sanidade mental.
Se você quer saber mais sobre os relacionamentos na Coréia, assista a este vídeo das meninas do canal Oh, My Friend! Amanda e Marcella moram lá há seis anos e trazem muuuitas curiosidades daquelas bandas em seus canais.
Pra entender mais:
Oppa: é uma forma carinhosa que as coreanas (e garotas de outros países) chamam seus namorados na Coréia do Sul.
Prota: protagonistas
OST — Original Soundtrack: trilha sonora original dos dramas
Pra ouvir minhas músicas preferidas das OST clique aqui.